O mar...
Morar de frente pro mar traz um modo de se relacionar com o
tempo das coisas que parece carregar o som e o tempo da água do mar a se mover
numa paisagem visual durante todo o dia e noite...
Voltar para o lugar que é rodeado pelo mar, talvez
signifique modificar o ritmo e entrar em outra lógica de funcionamento
Num lugar depois da ladeira em que entradas, becos e saídas,
escadas e blocos nus ora aparecem, ora são apenas passagens para uma paisagem
azul... olhar o mar daqui da vila parece deixar as pessoas em estado de
hipnose...
Por coincidência do destino, estou morando aqui na própria
Vila. É reconfortante saber que existe um acolhimento das pessoas que me
cumprimentam – fruto de visitas num processo criativo de dança contemporânea.
As crianças reconhecem partes do trabalho tentando imitar aquilo que é feito...
muitos riem, reconhecem que algo está sendo feito e acham engraçado!!
O barulho e as cores que a ladeira apresenta desaparece no
lugar onde estou morando na Vila – o som em comum da ladeira com as crianças
brincando e pessoas falando, daqui não se escuta. É como se dentro da própria
comunidade recortes outros se apresentam diante de quem aqui mora, em becos,
entradas e saídas e recortes distintos de uma mesma paisagem. Está sendo
importante respirar esse lugar dessa forma, nem que seja pra chegar pela
ladeira e sair pela ladeira todos os dias... mesmo quando não tem ensaio, viver
aqui fortalece os ensaios necessários que não podem ocorrer por alguma razão...
O barulho do mar está em toda a parte... durmo e acordo com
esse som – é o melhor para concentrar a escrita e pensar no dia que vem...
...
Hoje fiquei um pouco triste com o estado sujo da ladeira –
parece que a Limpurb vem aqui uma vez no mês... muita sujeira num lugar tão
bonito!!! Dá uma sensação de inutilidade ficar fazendo movimentos na ladeira
sem que isso faça um sentido de mudança para a comunidade, que aliás nesse
momento, estou fazendo parte dela.
É um dos contrastes sociais que encontramos em lugares do
centro da cidade que ao mesmo tempo são periféricos... a prefeitura fica muito
ocupada limpando os centros da cidade e a Vila, que muita gente nem sabe que
existe fica a míngua!
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